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Pau-a-pique e técnicas similares


A maioria das pessoas associa o pau-a-pique (ou taipa de mão) com pobreza, a imagem comum que temos é de algo negativo e pra muita gente não ter mais que morar numa casa de pau-a-pique é sinal de progresso, de que "subiu na vida". Para alguns a imagem da casinha mal acabada, com rachaduras e buraquinhos nas paredes não é muito bonita (apesar de que pra mim essa imagem é quase que poética).

Pau-a-pique é a técnica tradicional do Brasil, mas outras técnicas similares de barro lançado existem, com diversos nomes e variações, estão presentes em um monte de lugar do mundo. Em espanhol pode ser encontrada como bahareque, bajareque, quincha, fajina. Basicamente é um entramado de madeira ou bambu preenchido com barro plástico, a maneira de executar, muda de acordo com a região, pois depende dos materiais existentes, do clima, da cultura local, e de cada construtor. É o que chamamos de "Arquitetura vernacular".


Num curso com o Orlando Rivero do D'Terra tive meu primeiro contato com essa técnica, improvisamos e fizemos com os materiais que havia no local.


Eu tive a oportunidade de participar de obras na Argentina e no Uruguai e aprendi algumas maneiras de realizar essa técnica, que é a minha preferida, acho muito prática, rápida e terapêutica rs. É muito econômica, sem falar que é super ecológica, não produz resíduos, tem a questão do isolamento térmico e da absorção da umidade (na verdade essas são características do barro como material de construção), sendo um regulador de temperatura, conforto térmico nota 10. E o que eu acho mais lindo, é uma técnica fácil de aprender, por esse motivo propicia um modo de construção comunitária.


Essa foi na Argentina, onde a técnica é chamada de "quincha", é diferente da que usamos aqui no Brasil, mas confesso que sou apaixonada pela maneira como aprendi a fazer lá. Na foto a mulherada fazendo o recheio das paredes com palha e barro bem líquido (barbotina).


Na foto acima temos a estrutura de quincha pronta pra receber o recheio e na outra foto temos a parede "recheada", lá usaram diferentes recheios de acordo com a orientação da parede.

Lunita <3
Eider, Sharna e Luna <3 Muito amor numa foto só

Depois do recheio vem uma camada de barro, lá eles chamam de "reboco grosso", esse reboco ainda não é um acabamento final, mas já dá pra fazer os desenhos de alto relevo, já temos colocados os vidros e garrafas. Depois que seca, com uma massa grossa ainda fechamos algumas eventuais fissuras e imperfeições antes de receber o reboco fino, esse sim já é o primeiro passo de acabamento, depois viria a pintura, mas em alguns casos o pessoal deixa no fino mesmo.


Sobre essa obra, que fica no Uruguai, já falei aqui, contei um pouco da experiência "Lo de Ro" em si e não tanto sobre as técnicas, basicamente o mesmo princípio, primeiro foi montado o esqueleto de madeira, depois os painéis de quincha, e algumas variações, essa casa tem muitos detalhes para entrada de luz feitos com garrafas e outros objetos de vidro reaproveitados.


Uma tela metálica foi utilizada para fazer os desenhos com as garrafas, é uma maneria interessante de fazer, principalmente quando a quantidade de garrafas é grande, depois vem com a massa de barro e palha específica para esse caso.


Essa é uma parede interna que divide dois quartos, é chamada de "quincha peruana", originalmente feita com bambu trançado coberto com barro, nesse caso usamos bambu na vertical e uma folha comprida de uma planta que é bem abundante na região e alguém tinha cortado várias e jogado fora. Depois de embarrado dos dois lados fica super firme, é uma ótima opção para vedação interna, já que não fica tão grossa quanto a quincha tradicional.


Essa na verdade foi uma experiência, precisávamos construir algo rápido para um evento, seriam as duchas para as pessoas que iam acampar. Em um dia montamos a estrutura com paletes, e depois para o recheio foram utilizadas garrafas PET, e um reboco grosso para revestir.


Algumas pessoas têm dúvidas se é eficiente esse tipo de técnica, eu nunca li nada sobre o assunto, mas é uma maneira de reaproveitar esses materiais, ainda que a melhor opção seja diminuir o consumo, mas enquanto isso...

Esses vidros foram achados no lixão da cidade e reaproveitados nessa parede, que era pro pessoal esperar na fila do banho olhando a paisagem do campo mais protegido do frio.


Depois é dar acabamento, reboco fino e pintura. Aí cada um tem suas receitas, dependendo do uso e dos materiais disponíveis no local.


Essas duas fotos pedi pra um amigo uruguaio me mandar porque gosto muito do trabalho que eles fazem, a empresa chama Jacarandá Bioconstruccion, esse ano quando fui pro Uruguai conheci eles e me encantei com o trabalho que estão fazendo. São super bem acabados, não vai entrar bichinho e nem durar pouco tempo.


Eu queria escrever sobre essas técnicas pra tirar um pouco essa má impressão que ainda resiste sobre o pau-a-pique, que na verdade é uma opinião bem generalizada, tanto que essa tradição está sendo perdida em muitos lugares. Quando eu estava no Uruguai trabalhando numa obra, muita gente da cidade achava estranho que a gente estava construindo com barro, mas depois gostavam. Construir com barro é muito amor!












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